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Entrevista | Nutrição sistémica e consciente com a Dra. Ana Pernil

Onde começa a nossa relação com a comida? Estivemos à conversa com a nutricionista Ana Pernil para desmistificar conceitos e partilhar dicas.

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Como define a nutrição sistémica e o que a distingue da nutrição mais convencional?  

Na minha visão, a nutrição sistémica olha para a alimentação para além dos nutrientes e das calorias, é perceber que a forma como comemos também está ligada às nossas emoções, à nossa história familiar, aos padrões que aprendemos em casa e até à forma como nos relacionamos connosco próprios. 

A nutrição convencional é importante, claro, e dá-nos uma base essencial sobre o funcionamento do corpo e das necessidades nutricionais, mas muitas vezes fica focada apenas no “o que comer”. A nutrição sistémica tenta perceber também “porque é que comemos da forma que comemos” e  isso muda muita coisa. 

Com rotinas de trabalho tão preenchidas, é comum comermos sem grande atenção. Porque é que entramos nesse “piloto automático” e que efeitos pode ter no organismo? 

Atualmente vivemos muito em modo automático e em constante pressão para produzir, fazer mais e chegar a tudo, a todos e agradar.

Muitos de nós comem enquanto trabalham, mexem no telemóvel ou pensam já na próxima tarefa, no próximo fim de semana ou nos próximos meses e isto faz com que o corpo até receba o alimento, mas a mente não está verdadeiramente presente naquele momento. 

Quando isto acontece de forma constante, acabamos por perder a noção da fome e da saciedade, comemos mais rápido, mastigamos pior e até fazemos escolhas mais impulsivas. A longo prazo, tudo isto pode gerar desconforto digestivo, ansiedade em torno da comida, compulsão alimentar e uma desconexão grande do próprio corpo. 

Que sinais podem indicar que uma pessoa tem uma relação pouco consciente e presente com a alimentação? 

Existem vários sinais. Comer muito rápido e sentir culpa depois de comer; usar a comida como recompensa ou escape emocional; saltar refeições e depois perder o controlo  ou até nem conseguir identificar se tem realmente fome ou não. 

Outro sinal muito comum é viver constantemente em dietas, regras e controlo. Quando a alimentação deixa de ser algo natural e passa a ser uma fonte constante de stress, normalmente existe aí uma relação que precisa de ser olhada com mais atenção e cuidado. 

 

Como podemos libertar-nos de hábitos alimentares que já não nos servem? 

Acredito que a mudança não acontece através da culpa nem da pressão. Primeiro é preciso ganhar consciência, perceber de onde vem aquele hábito, o que ele tenta compensar ou proteger e em que momentos aparece. 

Muitas vezes queremos mudar o comportamento sem ouvir aquilo que está por trás dele e isso faz com que a mudança dure pouco tempo. Quando começamos a desenvolver mais presença, mais escuta do corpo e mais compaixão connosco, os hábitos começam naturalmente a transformar-se de forma mais sustentável. 

 

Ao longo de um dia de trabalho, que estratégias práticas podemos adotar para desenvolver uma relação mais consciente e equilibrada com a comida? 

Pequenas mudanças já fazem diferença. Por exemplo, parar realmente para comer, mesmo que sejam 10 ou 15 minutos, sem estar ao computador. Respirar fundo antes da refeição, mastigar mais devagar e tentar perceber como o corpo se sente ao longo do dia. 

Também ajuda muito preparar minimamente as refeições e snacks para evitar chegar ao ponto de comer qualquer coisa por impulso. E acima de tudo, sair da lógica do “perfeito”. Uma relação equilibrada com a alimentação constrói-se com consistência e presença, não com controlo extremo. 

Entrevista | Nutrição sistémica e consciente com a Dra. Ana Pernil