A propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, convidámos a Dra. Tânia Lima para uma conversa.

Noto que cada vez damos mais importância à saúde mental, e isso vê-se sobretudo nas gerações mais novas. Falam abertamente sobre ansiedade, burnout e depressão e essa abertura dá espaço a procurar ajuda mais cedo. O facto da pessoa ser mais receptiva às queixas relacionadas com a sua saúde mental leva a que não tenham vergonha de dizer "não estou bem". No meu ponto de vista, é uma mudança excelente que temos feito enquanto sociedade. As gerações mais velhas tendem a normalizar a falta de sono, o cansaço ou a tristeza. O estigma ainda pesa muito.
As estratégias têm de ser diferentes dependendo do contexto da pessoa. Para os mais novos: validar sem patologizar tudo (sim, porque nem tudo é sinónimo de doença!), dar ferramentas de gestão de stress e expectativas mais realistas sobre o trabalho. Para os mais experientes: normalizar o pedido de ajuda, com as chefias a dar o exemplo, e aproveitar a medicina do trabalho e medicina geral e familiar para despistar aquilo que nunca é dito em voz alta.
Tem, mas nos dois sentidos, e digo isto com honestidade: a evidência ainda não é sólida o suficiente. Para muitas pessoas, o híbrido foi, sem dúvida, uma bênção. Menos tempo no trânsito, mais flexibilidade para a família, mais autonomia.
Mas na consulta também vejo pessoas que nunca desligam, que respondem a emails às 23h porque o escritório agora é a sala de casa e não conseguem separar as horas laborais das pessoais. Também vejo pessoas que se isolaram e perderam a rede informal do café com os colegas ou da pausa para pôr a conversa em dia que, parecendo que não, dá-nos saúde e aumenta a nossa produtividade. Essa fronteira esbatida entre trabalho e vida é um fator de risco cada vez maior para a exaustão e doenças como a ansiedade ou depressão.
O que recomendo? Rituais de fecho do dia, como fechar o portátil a uma hora definida. Respeitar o direito a desligar, dos dois lados. E garantir momentos presenciais regulares, porque o contacto humano não se substitui por videochamadas.
Primeiro, uma nota importante: um luto e uma separação são processos naturais da vida de cada um de nós. A maioria das pessoas atravessa-os sem precisar de intervenção médica; precisa, sobretudo, de tempo e de espaço, de reflexão interior.
O que uma empresa pode fazer? Já me debati muito sobre isto, porque tenho vários pacientes em consulta em que precisam de baixa por falta de entendimento com a entidade patronal. Acho que faz falta flexibilidade durante estas fases mais complexas, ou seja, horários ajustados, teletrabalho temporário e, sempre que necessário, licenças ou baixas sem pressões por parte das chefias. Chefias que perguntam "como está?" e realmente ficam para ouvir a resposta ou que enviam uma mensagem ou um e-mail a dizer “estamos aqui” faz toda a diferença na saúde mental do colaborador e até acho que reduz o tempo de absentismo laboral. Também, a existência de canais confidenciais de apoio podem ser benéficos.
Depois, saber sinalizar. Se ao fim de meses a pessoa continua sem conseguir funcionar, com o sono destruído, isolada, com labilidade emocional ou com o desempenho a cair de forma mantida (incluindo nas pausas, sem querer conviver), aí sim, deve ser encaminhada para o médico de família. Há lutos que se complicam e merecem acompanhamento. O papel da chefia é acompanhar, apoiar e facilitar estas fases de transição.
Das pessoas que tenho na consulta com ausências prolongadas, existe uma espécie de padrão que acaba por, ou prolongar o absentismo laboral ou agravar a saúde mental da pessoa em questão. Por exemplo, alguém que esteve de baixa 3 meses, volta numa segunda-feira ao mesmo posto, com a mesma carga e as mesmas condições que a tinham levado à baixa inicial. 3 meses depois provavelmente está outra vez de baixa. Se nada mudou, o resultado tende a repetir-se. Todos os intervenientes perdem com esta repetição nociva de hábitos.
Uma boa reintegração faz-se com um plano acordado entre a pessoa, a medicina do trabalho/médico de família e a chefia. Uma boa estratégia seria um regresso mais gradual, com horário ou carga reduzida nas primeiras semanas, ou então reajuste dos fatores que contribuíram para o burnout: volume de trabalho, autonomia, conflitos, reconhecimento. Esta pessoa também deverá fazer check-ins no médico assistente mais regulares, mas com discrição.
Há ainda um ponto sensível e, por vezes, difícil de contornar quando não existe abertura das chefias: a confidencialidade da ausência. O motivo da ausência pertence à própria pessoa, e cabe-lhe a ela decidir o que partilha com a equipa ou com a sua chefia.
Por fim, cuidado com o extremo oposto: tratar a pessoa como frágil e tirar-lhe as responsabilidades interessantes "para a proteger". Isso mina a confiança. O objetivo é que volte a sentir-se competente e segura, ao ritmo dela.
São a base de tudo, e é aqui que mais insisto na consulta. Uma noite mal dormida chega para alterar o humor, a concentração e a forma como reagimos ao stress. Quando a privação de sono se torna crónica, o risco de ansiedade e de depressão aumenta. Além de favorecer outras doenças como a obesidade ou doenças cardiovasculares. E criam-se ciclos viciosos: durmo mal, rendo menos, fico mais ansiosa/o, durmo ainda pior.
Com a alimentação passa-se algo parecido. Saltar refeições, abusar da cafeína, usar o álcool "para relaxar" ao fim do dia... tudo isto se reflete no sono e no humor. E traz consequências para a saúde, o que pode, a longo prazo, afetar a produtividade laboral.
O que recomendo? Coisas simples e gratuitas. Horários de sono regulares, mesmo ao fim de semana. Cafeína só até ao início da tarde. Movimento diário, nem que sejam 15 a 20 minutos de caminhada. Refeições sem ecrãs. E micropausas durante o trabalho. A evidência mostra que a consistência nestes hábitos pequenos tem um grande retorno em termos de saúde e prevenção da doença.

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